o Partido cobra você.
O lugar permitia uma volta ao tempo, com fotografias, o som e principalmente a arquitetura da casa.
Eu já havia tomado uns seis copos [de refrigerante de laranja, cola, guaraná, já viu o que dá ficar misturando bebidas né?] e, estava fraco, antes, a tarde, encontrei dois camaradas e começamos a tomar umas coisas [cocacola e kuat pra ser exato!] e falar sobre idéias, política, políticas, políticos e história.
Minha chatice e tédio me transformaram num velho rabugento: Como podem, o que querem? Não me encham o saco!
Improvisaram um concurso de dança, ficamos vendo quem dizia saber dançar, dançando [dois pra lá, dois pra cá, não parecia dificil], estava tudo indo, até que um rapaz, simpático até, apesar da cara de juvenil fugido d'algum manifesto da época de Lamarca, aproxima-se e, cumprimentando-me como "camarada!" diz: Sua presença significa uma futura [ele quis dizer que seria logo, coisa como, amanhã, sem esperar o dia, bem cedo!] ao Partido!?
Não pude acreditar! Na verdade, não quis acreditar!
Como assim associação ao Partido!? Como assim a minha presença nesta comemoração da cor de sangue significa a minha entrada gloriosa a um grupo partidário? Quem disse que pretendo entrar para um grupo "restrito" da política, esta mesma que me causa ânsia por tantos motivos?
Eu respeito a história e todos os aniversários do partido, melhor, dos partidos e espero que todos eles se partam também! Espero que todos eles tomem um rumo, quero que eles cresçam e desapareçam!
O crescimento que tenho visto é este de números, como bem disse a locutora da festa "o Partido cresceu tanto!" e disse tudo o que não esperava ouvir sobre o crescimento que causa à vida uma desventura tão grande, um evento que separa "nós não temos mais tempo para sentar à mesa com os nossos camaradas!". Então para que serve o crescimento se ele dificulta o relacionamento entre as pessoas?
O partido é da esquerda ou é da direita?
Quem nesses dias poderia me responder?
Qual partido está do meu lado, tomando parte nos assuntos que me interessam como cidadão, como estudante e trabalhador?
Quem é esse partido que luta de braços dados com os camaradas que fogem da mentira sindical que se instalou junto com o glamour que se tornou o termo "revolução"?
Esse mesmo partido, na verdade é um grupo de pais e filhos assalariados lutando pelo pão!
Esse mesmo partido não existe mais e sendo assim, como, por que merdas o jovem efervescente, movido pela fantasia da "morte pela causa" achou que vendo-me a sorrir numa festa normal deste tempo, achou o significado "ele está contente e entrará para o partido!"?
"O meu partido, é um coração partido" se posso completar ou refazer a frase que todos ja conhecem: o meu partido, é um coração partido, é uma alma perdida, é um jovem em profunda depressão, é um velho rabugento, é um homem desiludido sentado à frente da TV esperando o exato momento para morrer de tédio, vergonha, cansaço e tristeza, é uma adolescente libertando-se das garras da família e do namorado, é um menino egoísta chorando a falta do spider man, é um recém formado resistindo à falta de oportunidades, é um revolucionário de plástico, uma doméstica humilhada pela vadia disfarçada de dama, é um amor humilhado, são as delongas da Lei, é a divisão da produção cultural limitada em que se enxergam os escolhidos para formarem as malditas panelinhas alimentadas com a grana do governo que mostra números e gráficos estatísticos para se denominar o governo do povo, é a cidade tomada pela violência, é a assembléia que mais parece um curral com tanta gente sem capacidade para pensar um Estado, é a fome, o frio dos homens e mulheres invisíveis das ruas, é a prepotência da Ordem! São os folhetins publicitários, antes conhecidos como Jornais! É a "TV ei ei o Governador é o nosso Rei!", é a oposição imbecil e desmiolada, é a instituição de ensino que não tem quem ensine nada é a burra da reitora! É a igreja Institucional o mercado da fé! É a soberba do secretário da Orla. O meu partido é uma bandeira queimada na praça da revolução e isso quer dizer: virou cinzas e sumiu junto com a fumaça, no ar, sem direção, deixou de existir.
Em resposta ao rapaz, eu sorri. Porque [eu poderia dizer que foi a vida, as coisas todas que aconteceram que me transformaram nisso e etc] me transformei em um mentiroso sem escrúpulos, o pior deles, o que mente para si.
Poderia ter dito a ele: o Partido não precisa de mim e não me protege, mas ele cobra você.
Sorri um sorriso amarelo plastificado no meu rosto vermelho.
Para saber: o ódio alimenta e tornam pessoas maiores. Até mais edificante que o amor. Sim. Eu odeio você. Foda-se.
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