o falso.
Poeira e teias de aranhas, o clássico ambiente que caracteriza o abandono. Era tudo o que havia na gaveta.
Há muito não abria, nem pra olhar ali. Há um fundo falso e, talvez isso era o que me afastava de lá mas, nesse dia, mesmo com essa multidão toda e essa luz, estive por baixo, muito, até demais. Não me encontrava em lugar nenhum, em nada, em ninguém.
Era cansaço e mais solidão, contraste, mas isso encoraja.
No espelho, olheiras e barba de menino se destacavam num rosto manjado, um tal desconhecido, esse mesmo clichê.
- Estou aqui. Entretenha-se. Divirta-se com o meu ar alegre e espirituoso, eu sou um ator, não sou mentiroso, eu sou um ator.
Ninguém vai saber que depois das 23h, papeis e canetas dançam a imprimir toda a poesia, a beleza e criatividade de pensamentos, subversões a realidade dessa onda. Nem tudo é verdade. Ninguém vai saber da insônia que o manteve ali, escrevendo para o entretenimento seu de cada dia.
Para pouco e, sei que podia ser alem, emputecido com a gratuidade de toda essa história, levantei e em três passos alcancei a escrivaninha tristonha. Abri a gaveta, soprei e decidi tirar o fundo falso.
Meu pai disse uma vez - Você é o que é. viva assim, não adiante as coisas, espere o tempo!
Lembrava muito bem do rosto dele dizendo isso. E frente ao espelho hoje, com vinte e três anos, percebo que não pareço nada com ele.
Ao tirar o fundo falso, vi um envelope branco, envelhecido, agora tipo bege. Não estava fechado com cola, selo ou algo assim.
Curioso, abri e peguei o conteúdo. Havia um registro de nascimento, uma foto e uma fita azul claro com a escrita "Apenas um raio de sol é suficiente para afastar várias sombras."
A minha foto mais antiga, até ali, data de 1998, é uma 3x4 na minha primeira identidade, aos doze anos. Não tinha nenhuma referencia em imagens de minha infância.
Na foto, um menino de dois, três anos aproximadamente.
No Registro, Sétima Serventia de Registro Civil das Pessoas Naturais da Comarca de Assis, Estado de São Paulo.
(...)
Francisco das Oliveiras, nascido aos 23 dias do mês de setembro do ano de mil novecentos e oitenta e sete, 1987, as 7h23m da manhã.
Por um tempo pensei mesmo que fosse eu naquela foto, depois, eu de novo naquelas informações oficiais. Era eu em algo novo, eu desconhecido, de outra Cidade, Estado? Nova idade, signo...
Não podia ser. Não, nesses tempos em que os meus documentos de identificação foram totalmente renovados, e retirados outros novos como a carta pra dirigir e etc. Não podia, já era maior de idade!
E quanto a minha identidade? Voltar ao instituto de identificação seria estressante demais. Como é difícil conseguir uma identidade, pensei.
Sentei no chão, e fiquei olhando aquela foto. Procurei por mim ali. Procurei por mim aqui, naquele dia.
Concentrei na foto e vi que o menino tinha algo como um "curativo" acima do olho direito, no canto da sobrancelha.
Levantei, agora atônito e, fui ver no espelho, só pra confirmar, carrego uma cicatriz ali mesmo onde o menino carregava o "curativo".
Lembrei da história que minha mãe contou uma vez, sobre aquela marca: Minha irmã mais velha, sem experiência, cuidando de mim criança, passou a borda de uma frigideira quente na parte superior do meu olho direito.
Me sinto por fora e superficial, as vezes. Mas agora, me sentia falso.
Não me sentia bem, tampouco bom. Me senti sujo.
Tentei até chorar. Mas não seria verdade, seria falso!
Como os profetas, como os santos, como os palhaços, como o meu pai.
Seria falso.
Os meus olhos são castanhos e a minha cor é parda. Como diz no registro de Assis.
Os meus cabelos são cacheados e eu tenho uma cicatriz na sobrancelha direita, como o menino na foto.
Tenho dois registros de nascimento e agora, nenhuma identidade.
O meu medo, só depois percebi, não era do fundo falso na gaveta da escrivaninha abandonada. O medo era de me encontrar em alguma coisa maior que esse fundo falso que construi no meu peito. A escrivaninha, percebi, era eu.
0 comentários:
Postar um comentário