Valsa com Bashir
Nenhuma guerra pode ser santa.
O que alimenta o espírito humano é a vida e, guerra, você deve saber, não é vida, é destruição. É o pior que o homem já pôde inventar até os nossos dias.
Senti isso com muito mais intensidade ao ver "Valsa com Bashir".
Diferente das situações que os filmes [predominantemente] Norte-Americanos nos proporcionam diante do êxtase e glamour do guerreiro que, servil à pátria, morre deixando medalhas gloriosas aos entes, em Valsa com Bashir, vemos a desconstrução dessas e, de outras fantasias que sem poesia nenhuma pairam sob os ares que nos remetem às guerras.
Um homem, décadas depois de servir a Israel na invasão ao Líbano é levado a um passado que ele conseguira, por muito tempo, esconder de si mesmo. Um amigo, também ex-combatente, lhe conta como tem vivido desde a volta pra casa. Um pesadelo repetido por vinte anos. Uma opressão que o impedia de viver. Uma ressaca infernal e com isso, instiga o protagonista [que também é o diretor do filme] a uma busca, a algo que não interessava ao combatente com dificuldades de memória. Aí, o que nos pega, seria mesmo "memória" a causa do "esquecimento"?
O filme nos mostra que não. Seria mais uma defesa que [psicólogos explicam muito melhor] o soldado conseguira, pra poder viver sem tantos tormentos.
O documentário em forma de animação nos confunde, nos segura, entristece e excita!
Não é sobre a participação de israelenses ou libaneses, um país, nação em uma guerra, não, não é isso! É sobre as pessoas da ponta. Os que fazem a guerra pelos outros, os que morrem mesmo sem serem atingidos por munições físicas.
É sobre o quanto naquele mar, eles eram uma gota. Eram a frente de um absurdo que os maiorais do poder, lógico, não se deram ao trabalho nem de explicar pros meninos recrutas.
Em animação, [por isso, outrora quiseram comparar ao "Persepolis" de Marjane Satrapi, já que este também trata memórias de uma pessoa vitima das guerras e é também um trabalho autobiográfico] são reconstruídas imagens que para alguns, fugiam sem deixar vestígios, desapareciam levando parte da história de muitos, uma auto-defesa para os que conseguiam. Para outros, imagens mais reais ate que as suas próprias realidades.
O roteiro nos conduz em vai e vens por entre as cenas do novo cotidiano dos ex-soldados, mostrando o que fazem e como vivem e aí, nas suas "novas vidas", como sobrevivem às histórias da experiência em guerra.
É seguro e excelente. Um roteiro responsável, como o tinha de ser!
Não é o foco, mas vemos alguns dos principais motivos que mantêm tantas feridas abertas no Oriente Médio. As memórias, são elas vivas nas pessoas, no passado, na história, que impede a cura, a cicatrização.
A opressão setorializada. Religiao absurdamente dominante, um domínio sem escrúpulos, anti-humanos, anti-deuses ou santos e, mesmo assim certificam: a guerra é santa.
Santa demais, sendo pois tão nobre, como explicar tantas mortes?
Certo, eu sei: a morte, na verdade é a recompensa. A moeda de troca aos que suicidam-se quase em estado de transe, uma viajem louca e sem volta.
Já disse, não é o foco mas, as ultimas cenas fogem da proposta de animação e mostram imagens reais que, não sabendo a origem e época, pensaríamos ser imagens dos campos de concentração que dizimaram um número enorme de judeus, ciganos e homossexuais.
Mais que cinema, uma experiência, uma visita à realidades afins.
Valsa com Bashir, um filme pra ver olhando além, como deveria ser sempre.
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