7.09.2012

A vergonha por ela mesma e a saudade da casa da mãe Joana

Ninguém me perdeu. Não disseram coisas sobre o quanto sentiram minha falta. Não celebraram nada também. Naquele dia, Lula apertou a mão de Maluf em São Paulo. Evento histórico mais na polemica momentânea do que na novidade, que não foi. Em Rio Branco, um empreendimento habitacional sacudiu a Cidade, o Estado e ninguém me perdeu.
Estive guardada no bolso de um vazio qualquer. Estive protegida, escondida como fosse um presentinho de namorado apaixonado, ninguem me perderia de modo algum.
Acontecimentos felizes no mesmo dia em que desapareci, mas que ninguém me perdeu. Ninguém.

Você parece curioso.

Por que falo assim? Qual o motivo da crise?
Tens coragem de me fazer esse tipo de pergunta? Não me conhece o suficiente? Não!?
Me perdeu também ou nunca me teve?

Ai!

Ok ok, vamos lá.

Já passa da hora de você saber algo sobre mim.

Ando triste, em crise. Mas não são problemas adolescentes [somente].
Imagine você ter um nome e nem ele ser seu. Próprio. Daqueles que não admitem tradução.

Pois é. Aqui no Brasil, me chamam Vergonha. Nos states, sou Shame. Parece nome de dragqueen. Parece um tipo de pudim, algo mole, não sei. Não sei quem resolveu me chamar assim mas, este não é o problema principal. Aurélio, um bom rapaz até, resolveu dar um significado ao nome. Isso poderia ser muito bom! Sabe, significados de nomes sempre são interessantes, por exemplo, Francisco, aquele que vem da França! Chique né!? Pois é. O meu não só tem um significado, como também uma classificação, olha só: Do latim verecundia, me tornei aqui um Substantivo feminino com várias significações, entre elas, destaco a parte que me faz sentir tão inexistente nesse mundo louco: Pudor, Ato, atitude, palavras, Sentimento da própria dignidade; brio, honra. Vê? Se me perco, se me perdem, perdem também tudo aquilo que me identifica, que faz de mim algo que valha a pena. Com essa coisa toda só posso pensar, caralho, não sou uma boa pessoa! Não faço parte da tribo daquelas figuras! Por que me querem tão longe?

Ouço muitas vezes alguém dizendo sobre outras pessoas, coisas como “olha como ele é envergonhado, tão sem jeito!” ou “ela tem vergonha de falar!”. Caralho Mané! Enfatizam muito a timidez, prima próxima, reconheço mas, eu não to em crise por isso! Quero que o meu nome, a minha significância esteja na boca, na mente das pessoas do modo que mais importa! Ninguem se lembra de mim quando as CPIzzas vão pro arquivo. Filho da puta nenhum me tem quando inocenta tantos bandidos na Capital.

Pobre vergonha tão carente! Você pensa. Mas não! Carente está o mundo! Carente de mim, dos primos próximos, pudor, caráter, dignidade, honra, sinceridade!

Sei que as pessoas sentem a minha falta em vários momentos do cotidiano, vendo tantas outras fazendo coisas que me mandam pra longe dali!

Ladrões, pedófilos, deputados, vereadores, assassinos, jornalistas, advogados, senadores, traficantes, governadores, médicos, motoristas me perdem muito! Não todos, mas em todos os grupos me perco!

Sempre fui cidadã do mundo. Uma moça bela e de famílias viajando pelos tantos cantos do planeta e agora me vejo mais como uma estrangeira.

Outro dia acompanhei um papo entre dois jovens na rua, a céu aberto. Um cara se aproximou d’uma menina e, perguntou

- Ow, você é puta?

A menina atônita, retruca

- O que?!

O cara insiste

- Você é puta?

A menina, furiosa, responde

- e você é um filho de puta?

E continua

- Porque pra tratar alguém com tanta falta de vergonha e respeito assim, só pode ser um filho da puta mais filho da puta que nem os próprios filhos da puta poderiam ser tão filho da puta!

O cara filhodaputamentefilhodaputa retruca

- Ow, só quis saber se você é puta. Porque, olha só como você está vestida! Não tem vergonha? Não pode me culpar, você parece uma puta!

Isso destruiu a menina. Ela ficou sem chão. Mas não desistiu e retrucou

- O velho papo do julgamento pela aparência! Você me chama de puta pelo que você vê, sem nunca ter visto uma atitude qualquer minha. Eu te chamo filho da puta pela atitude que você teve. Daqui a pouco tiro a roupa, visto outra e ainda serei eu, ainda terei minha dignidade, mas você não. Ainda será um filho da puta ao acordar! Vá tomar no cú seu imbecil!

Dito isso, saiu. Foi embora e deixou o filho da puta atônito.

Lógico, estive com a moça em todo o tempo! Eu, a dignidade e o respeito que ela tinha por ela mesma.

Carrego na minha vida tantas e tantas histórias desse tipo que sempre lembro alguma pra contar sobre o quanto alguns me deixam de lado ao mesmo tempo em que tantos outros fazem questão de segurar na minha mão e me levar a todo lugar, não importando o que os outros, do lado de fora vão pensar.

Me sinto só, triste, furiosa, e etc por ver tanto figurão me deixando lá fora enquanto fazem coisas horrorosas que afetam milhões de amigos meus mundo afora. Mas em contraponto, há tanta gente que faz de mim e de primos próximos [especialmente o caráter, respeito e a dignidade] parte da vida deles que me renovam e me fazem continuar a passear nos pensamentos desse povo todo.

Um dia desses, acordei bem cedo, eram 5h45min, estava sentada na beira do rio. Haviam dois barcos amarrados na margem. Ao redor, galhos secos e capim. Ventava fraco e arrepiava o rio. Rastros de luz surgiam por trás das árvores do outro lado do rio. Via o dia chegar quando senti falta de mim. Senti que não estava ali, que não estava aonde deveria estar. Tinha me perdido. Perdi a mim mesma. Eu perdi e ninguem mais o fez também. Isso, só eu pude fazer ali, que seja, nem melhor nem pior que no Paraguai. Lá me perdi imoral e melancolicamente. Meu nome não foi lembrado uma vez se quer pela direita e lá, bem a esquerda, choravam a minha perda.

Tenho me perdido em todas as partes do mundo!

Uma juventude alcólotra, drogada prostituta e imbecil pensa tanta besteira, faz tantas outras que dali, passo longe! Pensa aí! Os velhos dominantes daqui a pouco serão substituídos por estes pequenos burgueses idiotas! Haverá, por Deus! Lugar pra mim no mundo de amanhã?

Na casa da mãe Joana, pelo contrário, é que encontro um lugar.
Mãe Joana é uma daquelas velhas mais jovens que qualquer ninfa poderia ser.
Na casa dela não se admite putaria! Não há TV e, a Internet é incrivelmente bem utilizada!

Liberdade é entendida como liberdade, propriamente.

Joana me ouve, tenho saudades de lá.

Minha vida em duas cores, fifty, fifty bem e mau. Preciso tomar lugar em muitas cabeças ainda.

Não posso ser jogada no lixo por tanta gente! Tenho uma história!

Não sou santa nem puta. Sou uma menina, uma mulher, um sentimento, uma atitude, um homem, um malandro, não um Mané. Sou parte de um rockstar, de um policial, um político ate, um religioso ou um ateu. Um ator, um mentiroso não. To no twitter, tumblr, facebook, MSN, ebuddy, GPlus, blogger, entenda, to por lá porque o mundo todo tá lá também. Na casa da mãe Joana tenho um lugar, na “casa do povo” não.

Tenho um nome, milhares de traduções dele e, tantos outros significados. Tenho a mim mesma e tantos me perdem ou não me querem por perto. Mãos na cabeça, cabeça no lugar, se quiser me ter [veja, diferente de meter, me – ter = me ter] é só agir, posso gostar de você e, você de mim.

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1 comentários:

  1. Muito bom o texto, a vergonha pode ser agrupada como um dos "valores" que se foram na atual sociedade. Abçoo!

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